O MELHOR DE TUDO
Uma torta
para o Santo

Célebre doce que homenageia Santiago tem seu
consumo triplicado na Quaresma.
J.
A.DIAS LOPES – Especial para O Estado, 26/MAR/04.
Misturando apenas farinha de amêndoa e de trigo,
açúcar, ovo, casca de limão ralada e uma pitada de canela, os espanhóis
fazem um dos doces mais célebres do mundo. Um doce Medieval. ‘E a torta
de Santiago, nascida com inspiração religiosa. Homenageia um grande
santo católico.
Segundo a tradição, os restos mortais de São
Tiago Maior, pescador profissional, irmão de São João e primeiro
apóstolo de Jesus a tombar martirizado, repousariam na Espanha.
Decapitado na Palestina, por ordem de Herodes, teve seu corpo resgatado
pelos seguidores. A seguir, levaram-no pelo mar à Espanha, onde ele
pregara durante seis anos.
O povo acredita que a embarcação foi guiada por
um anjo. Estaria sepultado no altar-mor da Catedral de Santiago de
Compostela, na província da Galícia, ao norte de Portugal. Todos os
anos, milhões de visitantes aparecem ali para venerá-lo. Na idade Média,
Santiago de Compostela se tornou um dos três mais importantes centros de
peregrinação católica no mundo. Os outros são, Jerusalém e Roma.
A torta
A torta para o
santo, embora seja preparada o ano inteiro, tem o consumo triplicado
nesta época, ou seja, durante a Quaresma – os 40 dias que vão da
Quarta-Feira de Cinzas até o Domingo de Páscoa. A abstinência alimentar
que a Igreja Católica prescreve para o período excluiu os doces. A
procura também aumenta em Julho, pois a 25 daquele mês se comemora a
Festa do santo.
A fina camada de
açúcar de confeiteiro polvilhada sobre a torta aparece entrecortada pela
cruz da Ordem de Santiago. Ninguém sabe onde e quando a receita nasceu,
nem porque recebeu o nome do apóstolo de Jesus. O fato é que os
peregrinos que chegam a Santiago de Compostela a consomem há séculos.
Alguns fazem isso embriagados pela fé. Nem precisavam de tanto. A Torta
de Santiago é um grande doce, independente da relação com a
espiritualidade.
Um dos
ingredientes – a amêndoa – testemunha sua antiguidade. Fruto ou semente
de uma planta de origem incerta, cultivada há milênios na bacia do
Mediterrâneo e também na Ásia, figura em velhos textos medievais
históricos.
Nas receitas
mais antigas, era combinada com mel, leite, fruta seca ou fresca. A
amêndoa é a base do marzipã. Essa preparação, que ainda leva claras de
ovo e açúcar, haveria surgido no século XIII.
Exerceu forte influência no desenvolvimento da alta confeitaria
européia.
Três países
reclamam sua autoria. Os italianos afirmam que o marzipã se originou em
Veneza. Sua conterrânea Caterina d`Medice o teria levado a Paris,
em 1533, quando casou com o futuro rei da França, Henrique II.
Os espanhóis
asseguram que surgiu num convento de Toledo, perto de Madri, como
alternativa para o pão, alimento impossível de ser produzido num inverno
particularmente rigoroso. No século XVI, as monjas espanholas
comiam marzipã nos dias de interdição penitencial da carne. A amêndoa é
substanciosa. Contém 50% de gorduras, 15% de proteínas, bem como sais
minerais e vitaminas. Santa Teresa de A`villa, freira e mística,
dava o aval. “As amêndoas fazem muito bem às mulheres que não podem
comer carne”, afirmava ela. Os alemães da cidade de Lubek repetem uma
história igual à de Toledo, só que ocorrida no seu território.
A pâtisserie da
Galícia possui outras obras-primas ã base de amêndoa. Uma delas é a
Torta de Mondoñedo, que tem o nome de uma antiga cidade de região,
cortada por ruas encantadoras, velhas igrejas e casas senhoriais.
Entretanto, não se notabiliza apenas pelos doces. Cultiva esplêndidas
abóboras, acelgas, alhos, batatas, cebolas, couves-de-bruxelas, feijões,
nabos, pimentões e tomates. A fama de suas ostras, amêijoas, mexilhões,
percebes, polvos e lampreias correm o mundo. As vieiras – cujas conchas
os peregrinos de Santiago de Compostela adotaram como símbolo – têm
sabor espetacular. O mesmo se diga dos queijos, com destaque para o
cremoso e suave tetilla; e das castanhas, que ao passarem pela calda de
açúcar se transformam no cobiçado marrom glacê. O vinho branco Albariño
e a aguardente de orujo, irmã da bagaceira portuguesa completam a festa
galega.
Os peregrinos que
percorrem o Caminho de Santiago geralmente começam a viagem na França.
Há outros pontos de partida, mas um deles é a cidade de Saint
Jean-Pied-de-Port, a 22 quilômetros da fronteira com a Espanha. A
tradição manda sair chegar ao destino a pé. Existe quem escolha
bicicleta ou cavalo. Também é possível ir de automóvel, embora esse meio
talvez não agrade ao céu. A primeira localidade na Espanha é Roncesvalle. Até Santiago de Compostela serão mais de 700 quilômetros,
ao longo dos quais se encontram 87 cidades, vilas e povoados. No
passado, os fiéis acreditavam que a viagem redimia pecados e assegurava
um lugar no paraíso. Hoje, os místicos afirmam que muda a vida das
pessoas.
Vem sendo assim
desde o ano 813, quando os restos de São Tiago foram reencontrados, após
quase oito séculos de sumiço, num lugar onde as estrelas eram mais
brilhantes. Daí o nome de Compostela, ou seja, Campo das Estrelas.
Deslumbrado com a descoberta, Afonso II, o Casto, rei das Astúrias,
mandou construir ali uma igreja para guardar as relíquias. A atual
catedral de estilo românico surgiu entre os séculos XI e XII,
substituindo o primitivo templo.
Na mesma época
apareceu o Guia do peregrino, primeiro manual de viagens da Idade Média,
atribuído ao papa Calisto II. Por isso mesmo, passou a ser conhecido
como Codex Calixtinus. Descrevia o caminho de Santiago em detalhes,
ensinava como percorrê-lo, falava de seus lugares e gentes. Mas, além de
indicar os lugares de culto, sugeria onde dormir e comer, incluindo os
apetitosos pratos de caça de pêlo e pena de Navarra, província espanhola
situada na parte ocidental dos Pirineus. Os peregrinos pobres comiam de
graça.
Em Roncesvalle,
por exemplo, eram distribuídas anualmente 25 mil rações, que se resumiam
a um pedaço de pão e um copo de vinho. Entretanto, na Semana Santa e
outras ocasiões de abstinência de carne, recebiam caldo de verduras e
bacalhau cozido.
Atualmente,
persistem serviços gratuitos, entre os quais a hospedagem em albergues
públicos. O Caminho de Santiago, porém, oferece modernos hotéis,
luxuosos paradores de turismo e excelentes restaurantes, muitos
localizados em antigos estabelecimentos religiosos da Idade Média, assim
como ótimos bares e tavernas, sobretudo nas cidades de Pamplona, Logroño,
Santo Domingo de la Calzada, Burgos e Leão. Na localidade de Irache,
perto de Estella, em Navarra, encontra-se a Fonte dos Peregrinos.
Compreensivelmente, tornou-se um dos lugares mais visitados. Possui duas
torneiras embutidas em vieiras moldadas no metal da parede. A da direita
jorra água pura; a outra, vinho tinto. Bebe-se à vontade e de graça.
Afinal, como diz o provérbio galego, “sem vinho e sem pão não se faz o
caminho”.
RECEITA – TORTA DE SANTIAGO
Ingredientes
Massa :
1 ovo, 125 gramas de
açúcar, cerca de 1 a 2 colheres (sopa) de água quente, 125 gramas de
farinha de trigo, manteiga para untar, farinha de trigo para polvilhar,
açúcar de confeiteiro para polvilhar.
Recheio : 4 ovos, 250
gramas de açúcar, casca ralada
de
1 limão, 250 gramas de amêndoas moídas, uma pitada de canela.
Preparo
da Massa : Numa tigela grande, bater o ovo com o açúcar e a água quente, até a
mistura espumar e os ingredientes ficarem bem incorporado.
Colocar a farinha de trigo aos poucos, mexendo sempre, para que a massa
fique lisa e homogênea.
Abri um pedaço de filme plástico sobre uma superfície de trabalho,
polvilhar com farinha de trigo, colocar a massa por cima e cobrir com
outro pedaço de filme plástico, também enfarinhado.
Com
um rolo, abrir a massa dentro do filme, até ficar com cerca de 2mm de
espessura.
Colocar a massa no fundo de uma forma de abrir, com cerca de 24 cm de
diâmetro, já untada com manteiga e polvilhada com farinha de trigo. Com
um garfo, furar a massa em vários pontos. Reservar.
Preparo do Recheio :
Bater os ovos com o açúcar, até crescerem e ficarem bem espumosos.
Incorporar a casca de limão ralada, as amêndoas moídas, a canela em pó e
misturar muito bem, até obter um composto homogêneo.
Finalização :
Derramar o recheio sobre a massa,
alisar e assar em forno preaquecido a 180 graus C, por cerca de 30 a 35
minutos. Deixar esfriar a torta dentro da fôrma.
Desenformar num prato de service e, antes do primeiro corte, polvilhar
com açúcar de confeiteiro.
Nota :
A tradição manda recortar numa
cartolina o molde da Cruz da Ordem de Santiago e colocar sobre a torta.
Depois, polvilhar a torta com açúcar de confeiteiro e retirar o molde. A
cruz ficará desenhada na torta.
Rendimento :
8 a 10 porções.

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